sexta-feira, 1 de março de 2013

Foi Sem ter Sido... Cédulas que Quase Circularam

Ensaio de Cédulas Não Circuladas 

*100 Mil Réis - Santos Dumont


Valor Facial: 100 Mil Réis - Data provável do estudo: 1937/8

Documento do acervo do Museu de Valores do Banco Central do Brasil, representando um modelo de nota de cem mil réis, que não entrou em circulação.  Temos à direita a fotografia de Santos Dumont e na parte central abaixo do valor nominal da cédula o  Brasão da República. Possivelmente a fotografia que originou a estampa da cédula é a publicada abaixo.


*Santos Dumont (1873-1932)

No verso do documento temos registros referentes ao exame da nota: "Aprovado com modificações - S S. 3-2-1938"  assinadas por quatro pessoas. Consta também dois carimbos:   Thomas de La Rue - London  e da PROPAC (Companhia de Propaganda, Administração e Comunicação), representante da Thomas sediada no Rio de Janeiro.

Muito provavelmente, preferiram colocar em circulação a cédula conhecida como R-142 (referência do catálogo "Cédulas do Brasil", do Cláudio Amato, Irlei Neves e Júlio Schütz), encomendadas à Waterlow & Sons, também na Inglaterra:


*Cédula de 100 Mil Réis, que circulou antes do advento do Cruzeiro, em 1943.

*Dez Mil Cruzeiros - Santos Dumont


Valor Facial: 10 Mil Cruzeiros - Década de 60

Projeto da cédula de 10.000 Cruzeiros contemporânea da que circulou na década de 60 catalogada como C060. Essa seria a 2ª. estampa e com certeza seria uma de nossas mais belas cédulas. Desenho a cargo da Thomas de La Rue & Company. A 2ª estampa circulada é semelhante à primeira, com o grande diferencial de ter sido mudada sua coloração:

Foto do reverso da cédula de dez mil Cruzeiros
*Primeira Estampa da Cédula de 10 Mil Cruzeiros, feita na American Bank Note Company


*Segunda estampa, já carimbada com o reajuste para "Dez Cruzeiros Novos", feita na Thomas de La Rue & Company

*Um Milhão e Cinco Milhões de Cruzeiros - Anísio Teixeira e "Gaúcho"





Estas acabaram não entrando em circulação por conta da criação do Cruzeiro Real e consequente corte de 3 zeros. Reparem que quase não sofreram alterações. Seriam, portanto, as cédulas com maior valor facial criadas até então. Essas imagens são do fotolog do Leandro Brito, visitem no endereço: http://ubbibr.fotolog.com/leandrobrito/

*10 Mil Cruzeiros Reais - "Rendeira"





A grande novidade na linguagem visual das cédulas do CRUZEIRO REAL, período de 1993/94, foi na utilização dos tipos humanos regionais, caracterizadas por seus elementos específicos (aspectos urbanos, atividades e instrumentos de uso). Respeitando estes parâmetros entraram em circulação as cédulas do "Gaúcho" e da "Baiana", valores de CR$5.000,00 e CR$50.000,00, respectivamente.


O lançamento da nota de CR$10.000,00 estava planejada para acontecer em 1994, juntamente com a do "Gaúcho". A temática escolhida para ser trabalhada e estampada foi a da mulher "Rendeira".
Em julho de 1994, com a implementação do "Plano Real", tivemos abortado todo o projeto de lançamento da nota "Rendeira". Surgia então um novo padrão monetário o REAL.

Fontes: http://aamuseuvalores.blogspot.com.br/
            http://mgermina.blogspot.com.br/
Fotos retiradas da Internet

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Acerca das Siglas nas Moedas Brasileiras


Existem diversas moedas brasileiras que aparecem siglas. Esse tópico serve para ilustrar aos nossos colegas a distinção delas. Siglas são letras ou monogramas inseridas nos cunhos das moedas, como um tipo de assinatura, que identificam os abridores de cunho. Nas moedas brasileiras, apesar de não ser uma prática comum, encontramos algumas situações onde essas assinaturas aparecem e até incorporam curiosidades que as tornam variantes dos modelos oficiais. Algumas moedas têm até um profissional para cada face, como algumas da série "vicentinas".

Tomamos conhecimento de siglas em moedas a partir de 1822 para, a partir de 1946, ter sido abolida de vez essa prática. Como abridores de cunho que deixaram suas marcas para a posterioridade, destacamos:

Zeferino Ferrez (1797-1851)

Sua assinatura Z. FERREZ aparece na mais importante moeda da numismática brasileira: a peça da coroação, de 1822. Era pai do fotógrafo Marc Ferrez, que retratou a vida cotidiana do Rio de Janeiro nos idos do século XIX.

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Conforme descrição de Hans Kochmann (SNB): "(...) a inscrição Z. FERREZ (Zeferino Ferrez, 1797-1851, gravador e abridor de cunhos da Casa da Moeda do Rio de Janeiro) em baixo relevo, é aposta na parte ovalada do corte do busto imperial (...)".

Carlos Custódio de Azevedo

A sigla AZEVEDO F. (AZEVEDO fecit(1)) aparece nas moedas de 4$000 e 6$400, 1832, sob o busto de D. Pedro II, ainda menino.

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Christian Lüster (1822-1871)

O dinamarquês Christian Lüster, desde 1861 produziu diversos ensaios e provas para Casa da Moeda para, em 1867, começarem a circular moedas com sua marca. Lüster adotava dois tipos de assinaturas: C.L. ou LÜSTER F. (Luster fecit - em latim, "feito por Luster"). Sua sigla pode ser encontrada em moedas de prata e bronze até 1875.

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Ernesto de Souza Reis Carvalho

As iniciais E.S.R.C. são encontradas nas moedas de bronze de 1873 a 1880.

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Francisco José Pinto Carneiro

As iniciais F.C. aparecem discretamente nas moedas de 500 e 1000 réis de prata de 1889. Aparecem, também, nas de 10000 e 20000 réis de ouro a partir de 1889 até 1922, tendo sido responsável pelas primeiras emissões do período republicano.

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Paulim Tasset (1839-1919)

Na produção estrondosa das moedas de 1901 (as primeiras e únicas onde a era é expressa em algarismos romanos - MCMI), todas cunhadas fora do Brasil (Alemanha, Inglaterra, Áustria, França e Bélgica), entre as estrelas aparece uma discretíssima sigla PT, quase imperceptível, sigla do francês Paulim Tasset - série de 100, 200 e 400 réis.

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João da Cruz Vargas

Um J sobreposto a um V, parecendo um Y deitado. Esse é o monograma que representa a assinatura de João Vargas. Em 1914, elaborou um ensaio para uma moeda de 2000 réis que acabou sendo utilizada nas moedas de 500 e 1000 réis de 1924 a 1931.

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Calmon Barreto (1909-1994)

A série comemorativa do quarto centenário da colonização do Brasil (1932), conhecidas como Vicentinas, leva a assinatura de Calmon Barreto nas moedas de 200 e 500 réis: um monograma CB com a letra C envolvendo a letra B. Variando ou simplesmente CB nas moedas posteriores (1935 a 1938).

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Walter Rodrigues Toledo

Inicialmente, em 1932, era um monograma com as letra WT sendo o T formado pela perna da direita do W mostrado na série "vicentinas" nas moedas de 100 e 400 réis. Depois, variando ou apenas as iniciais WT (1935 a 1938) para, posteriormente (1942 a 1945), o T ir parar no meio do W.

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Leopoldo Alves de Campos

Seu monograma já aparecia na série "vicentinas", de 1932, nos valores 100, 1000 e 2000 réis para aparecer novamente na série "brasileiros ilustres", período de 1936 a 1938, nos valores 200, 300 e 2000 réis.

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Arlindo Bastos

Monograma formado com as letras BA. Aparecem nas moedas de 200 e 2000 réis da série "vicentinas" (1932). Curiosamente o layout do reverso de 2000 réis da série vicentina coube a ele e o anverso ao Leopoldo Alves.

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Basílio Nunes

De alguma forma é um monograma com as letras B e N. Basílio Nunes assina o reverso da moeda de 400 réis da série "vicentinas", 1932.

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Hermínio José Pereira

No reverso da moeda de 1000 réis da série "vicentinas" consta a assinatura de Hermínio Pereira.

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Orlando Moutinho Maia

O "O" sobreposto a um "M" forma o monograma utilizado por Orlando Maia identificar suas obras. Já em 1939 (brasileiros ilustres) percebe-se a gravação da sigla OM nas moedas de 2000 réis estendendo até os anos 1945 com o cruzeiro em andamento.

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Benedito Ribeiro

No início do padrão cruzeiro, de 1942 a 1944 com a sigla BR.

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Agradeço ao amigo Eduardo Rezende pela cessão do tópico e pesquisa enriquecedora.
Fonte: http://www.moedasdobrasil.com.br/siglas1.asp

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Damnatio Memoriae - A "Desonra" Retratada nas Moedas Romanas

Damnatio memoriae é a frase em latim que quer dizer "danação da memória", no sentido de remover da lembrança. Na Roma Antiga, era uma forma de desonra que podia ser passada pelo senado a traidores ou outros que trouxessem vergonha ao Estado romano, tarefa um pouco mais fácil, numa época em que os registros históricos eram mais escassos.

O significado da expressão damnatio memoriae e da sanção era cancelar todos os vestígios dessa pessoa da vida de Roma, como se nunca tivesse existido, para preservar a honra da cidade. Numa cidade que dava grande importância à aparência social, respeito e ao orgulho de ser um verdadeiro Romano como requerimentos fundamentais do cidadão, era talvez o castigo mais severo.

Ficheiro:Severan dynasty - tondo.jpg
*Tondo da família Severa, com retratos de Septímio Severo, Júlia Domna, Caracala, e Geta. A face de Geta foi apagada, por causa da damnatio memoriae ordenada pelo seu irmão e assassino Caracala.

PRÁTICA

Na Roma Antiga, a prática de damnatio memoriae era a condenação das elites romanas e imperadores depois das suas mortes. Se o senado ou um imperador mais tardio não gostasse das ações de um indivíduo, eles podiam confiscar a propriedade dele, o seu nome seria apagado e as suas estátuas reutilizadas. Contudo, visto que havia um incentivo econômico para confiscar propriedades e reutilizar estátuas de qualquer maneira, historiadores e arqueólogos têm dificuldade em determinar se houve damnatio memoriae em alguns casos.

Ficheiro:Sejanus Damnatio Memoriae.jpg
*Lúcio Élio Sejano sofreu damnatio memoriae depois de uma conspiração falhada para destronar o imperador Tibério em 31. As suas estátuas foram destruidas e o seu nome obliterado de todos os registos públicos. A moeda mostrada de Augusta Bilbilis, cunhada para marcas o consulado de Sejano, tem as palavras L. Aelio Seiano apagadas

A prática de damnatio memoriae era raramente, se alguma vez, uma prática oficial. Uma damnatio memoriae verdadeiramente efetiva não seria notada por historiadores mais recentes, visto por definição qualquer menção da pessoa seria apagada do registo histórico. Contudo, visto que todas as figuras políticas tinham aliados além de inimigos, era difícil implementar a prática completamente. Por exemplo, o senado queria condenar a memória de Calígula, mas Cláudio impediu isto. Nero foi declarado um inimigo do Estado pelo senado, mas depois teve um funeral enorme para o honrar depois da sua morte, organizado por Vitélio. Enquanto estátuas de alguns imperadores foram destruídas ou reutilizadas depois da morte deles, outras foram erigidas. Historiadores às vezes usam a frase de facto damnatio memoriae quando a condenação não é oficial. Algumas pessoas que sofreram damnatio memoriae foram Sejano, que conspirou contra o imperador Tibério em 31, e mais tarde Livila, que foi revelada como sendo sua cúmplice. Os únicos imperadores conhecidos que receberam uma damnatio memoriae oficial foram Domiciano, e mais tarde o co-imperador Geta, cuja memória foi condenada pelo seu irmão co-imperador, Caracala, em 211.



*Medalhão de Caracalla e Geta que foi aplicada a damnatio memoriae apagando a face deste último. Cunhado em Estratonicéia (na atual Turquia, perto do que é hoje Istambul, no lado asiático). Tem 19'47 gramas e será leiloado em fevereiro por Ira & Moedas Larry Goldberg &, Collectibles Inc. por US$ 1,250 iniciais. No anverso, vemos o busto de Caracalla de fronte ao de seu irmão Geta, que foi apagado. Entre eles estão duas impressões sobrepostas, o busto com capacete de Atena e outro com 4 letras indeterminadas. No reverso, a deusa Hécate se apresenta à esquerda levando patera e tocha, com um cachorro aos seus pés.

Arquivo: Römermuseum Osterburken (DerHexer) 2012/09/30 008.jpg

*Damnatio memoriae de " Commodus "em uma inscrição no Museu de História Romana Osterburken . "CO" A abreviatura mais tarde foi restaurada com pintura


IMPERADORES ROMANOS CONDENADOS A DAMNATIO MEMORIAE

*Calígula                                
*Nero
*Domiciano
*Cômodo
*Clódio Albino
*Geta
*Macrino
*Alexandre Severo
*Maximino Trácio
*Gordiano III
*Filipe, o Árabe
*Décio
*Emiliano
*Galieno
*Aureliano
*Probo
*Caro
*Carino
*Numeriano
*Diocleciano
*Maximiano
*Galério
*Severo II
*Maximino Daia
*Maxêncio
*Licínio
*Constantino II
*Constante
*Magnêncio
*Magno Máximo

PRÁTICAS PARECIDAS NOUTRAS SOCIEDADES

1 - Os antigos egípcios davam extrema importância à preservação do nome de uma pessoa. Aquele que destruísse o nome de uma pessoa era visto como tendo destruído essa pessoa e isto era válido no mundo dos mortos.

2 - As cartelas do faraó herético Akhenaton da 18ª dinastia foram mutiladas pelos seus sucessores. Antes, nessa dinastia, ao reinar sozinho, Tutmés III havia ordenado um ataque parecido contra a sua madrasta Hatchepsut. Contudo, apenas as gravuras e estátuas dela como um rei coroado do Egito foram atacadas. Tudo o que a representava como uma rainha foi deixado intacto (a campanha acabou depois do seu filho ter sido coroado co-regente), por isso isto não foi completamente damnatio memoriae. Também há debates sobre Tutmés III ser o culpado, visto que isto aconteceu 47 anos depois dele se tornar faraó.

3 - No judaísmo, a maldição "Que o nome e memória dele/a sejam obliterados," (Hebraico: ימח שמו וזכרו , yimach shmo ve-zichro) é a pior maldição que um judeu pode dizer a outro.

4 - Heróstrato incendiou o Templo de Artemisa em Éfeso para se tornar famoso. Os líderes de Éfeso decidiram que o nome dele nunca mais podia ser dito, sob pena de morte.

5 - Adandozan, rei de Daomé no início do século XIX, prendeu o seu irmão Gakpe. Depois de se tornar no rei Guezo, ele vingou-se ao apagar a memória de Adandozan. Até hoje, Adandozan não é oficialmente considerado como um dos doze reis de Daomé.

6 - Marino Faliero, quinquagésimo-quinto Doge de Veneza, recebeu damnatio memoriae depois de um golpe de Estado falhado.

Arquivo: Local fazer Retrato de Marino Faliero nd Galeria dos Doges de Veneza.jpg
*Lugar na série de retratos de Doges de Veneza , dizendo: "Aqui é o lugar de Marino Faliero , decapitado por seus crimes "

7 - Exemplos mais modernos de damnatio memoriae são os actos de remover retratos, livros, remover pessoas de fotografias, e outros vestígios dos adversários de Josef Stalin durante o Grande Expurgo. Ironicamente, o próprio Stalin foi removido de uns filmes de propaganda quando Nikita Khruschev se tornou no líder da União Soviética, e a cidade de Tsarítsin que antes se tinha chamado Stalingrado foi chamada Volgogrado em 1961.

Ficheiro:Voroshilov, Molotov, Stalin, with Nikolai Yezhov.jpg
Ficheiro:The Commissar Vanishes 2.jpg
*Exemplo recente de uma prática parecida à Damnatio Memoriae: Uma forografia de Josef Stalin com o comissário soviético Nikolai Yezhov foi retocada depois de Yezhov cair em desgraça e ser executado em 1940.

*Fonte: Wikipedia

domingo, 20 de janeiro de 2013

A História do Dólar

A HISTÓRIA DO DÓLAR NORTE-AMERICANO RESUME-SE A UMA LONGA EVOLUÇÃO QUE LIVRA A DIVISA NORTE-AMERICANA DA DESORDEM INTERNA, TRANSFORMANDO-A NA PRIMEIRA MOEDA INTERNACIONAL.



*5 Cents de dólar, 1792

Durante a segunda metade do século XIX, a libra esterlina gozava da primazia como moeda internacional. De todas as suas possíveis rivais, o dólar norte-americano parecia ser a moeda que tinha menos possibilidade de substituí-la. Os EUA eram um devedor internacional não muito confiável, que necessitava de um banco central e, inclusive, de um sistema monetário unificado. A preponderância do dólar só se impôs no século XX, depois de uma história longa e inverossímil que deu lugar, finalmente, à criação de um organismo bancário central, a Reserva Federal, e converteu o dólar em uma moeda nacional garantida pelo governo federal.

O dólar tornou-se uma unidade monetária por decisão do Congresso dos EUA em 1785. Sua base era a piastra-dolera da América Latina, cujo nome derivava do thaler alemão.

Ao contrário dos sistemas monetários europeus, a Constituição dos EUA, adotada em 1789, nunca outorgou a exclusividade de emissão de moedas e notas ao governo federal. A falta de uma legislação monetária clara deu lugar a uma infinidade de meios de pagamento que circulavam praticamente sem nenhum controle ou respaldo de um organismo bancário central. Nessa situação caótica, as moedas estrangeiras tiveram curso legal até 1857, e ainda em 1901 uma mina de prata de Oregon continuava cunhando suas próprias moedas de prata para “uso comercial”.

 
*Exemplos de cunhagens particulares: Clark, Gruber & Co. US$ 2,5 em ouro, 1860


*Clark, Gruber & Company - Banco particular e casa de moeda, Oregon, século XIX


Como vários estados da União se encontravam na bancarrota por não poderem honrar suas emissões de papel-moeda, foram proibidos de emitir. Porém, nada os impedia de criar bancos, e estes podiam colocar cédulas em circulação livremente. Assim o estado de Kentucky fundou um banco privado, do qual era o único proprietário, e começou a efetuar pagamentos com suas cédulas. Essa tradição individualista em questões monetárias deu lugar a uma atividade bancária “descontrolada”, que se desenvolveu amparada por leis estatais muitas vezes extremamente complacentes (free banking laws) e que autorizavam qualquer indivíduo ou associação a abrir um banco e emitir cédulas, sem autorização ou controle algum.

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*Cédula de banco particular, estado da Georgia, meados do século XIX

A inexistência de um banco nacional obrigava o governo federal a fazer todas as suas transações através de estabelecimentos privados ou em espécie. Em 1840, o presidente Martin Van Buren criou o “sistema de Tesouro independente”, que se ocupou das operações financeiras do governo através de suas agências abertas em todo o território nacional. Mas o Tesouro não era um banco e não podia, portanto, emitir cédulas; todos os lucros e despesas governamentais tinham que ser efetuados em ouro ou prata. O Estado não podia custear desembolsos que ultrapassassem os impostos arrecadados, a não ser que recorresse à emissão de obrigações subscritas em ouro.

OS GREENBACKS

As necessidades de financiamento da Guerra da Secessão (1861-1865) deram origem a diversas disposições monetárias que permaneceram vigentes até o final do século. O Tesouro começou a emitir “notas à vista” (demand notes), que não tinham curso legal mas eram conversíveis em ouro. Não obstante, a escassez de reservas de ouro do Tesouro obrigou a suspender imediatamente a conversibilidade, e até o fim da guerra o financiamento pôde ser feito graças à emissão de notas do Tesouro (US Notes), respaldadas apenas na boa-fé e na reputação do governo. Elas eram chamadas popularmente de “notas verdes” (greenbacks), nome que ainda hoje o dólar norte-americano tem em todo o mundo.



 
 
*Algumas "Greenbacks" do fim do século XIX

A emissão das “notas verdes” estava limitada a 433 milhões, mas devido às crescentes dificuldades para obter empréstimos e ao crescimento dos gastos o secretário do Tesouro, Salmon P. Chase, decidiu aplicar em todo o país o sistema de livre criação de bancos, autorizado por uma lei de 1869, a National Bank Act. Essa lei autorizava qualquer grupo de cinco pessoas a constituir uma “associação bancária nacional” e emitir notas correspondentes  a suas obrigações do governo federal, depositadas junto ao Controlador da Moeda (funcionário do Tesouro responsável pelo desenho e emissão das cédulas).

Para impedir a concorrência entre essas notas e as dos bancos estaduais, estes últimos tinham que pagar uma taxa de 10%, o que logo os levou a sair de circulação. Os bancos estaduais contra-atacaram, oferecendo serviços de pagamento por cheque contra as contas em depósito, o que se mostrou um atraente substituto para as emissões dos bancos privados.

*Cédula de 100 dólares dos Estados Confederados da América, que prometia ao portador o pagamento "Dois anos após uma ratificação de um tratado de paz com os Estados Unidos"

Assim, no fim da Guerra de Secessão a extraordinária diversidade de formas de pagamento, representando as obrigações de milhares de bancos, haviam-se reduzido às “notas verdes” e às notas dos bancos privados (chamados national Banks), que não podiam ser convertidas em metal, mas cujo número estava estritamente limitado. Nos EUA a oferta monetária ficava rigidamente fixada; não podia se ajustar às flutuações dos câmbios, nem às frequentes ondas de pânico desencadeadas pela falência dos bancos carentes de regulamentação (dois anos depois da aplicação do sistema de livre criação de bancos, em Michigan, por exemplo, os 40 estabelecimentos bancários existentes haviam falido).

CICLOS AGRÍCOLAS E ESCASSEZ DE NUMERÁRIO

Por tratar-se de um país agrário, as necessidades de moeda dependiam do ciclo da colheita. Quando os agricultores vendiam seus produtos, os depósitos se acumulavam nos bancos das regiões agrícolas e provocavam uma escassez de fundos nos bancos das regiões industriais do Leste. Os national banks, não podendo ter sucursais, careciam de um mecanismo para canalizar os recursos excedentes. Como não havia um banco central para emprestar reservas, não havia nenhum meio de enfrentar essas flutuações, exceto mediante a modificação brutal das taxas de juros e a declaração de falências dos bancos. Essa situação, agravada pela grande absorção de numerário de um Tesouro independente e a falta de uma regulamentação bancária estrita, provocava instabilidade extrema e frequentes crises.

Para muitos, essa instabilidade devia-se à falta de numerário, que beneficiava os que estavam interessados em que a prata fosse a base do sistema monetário norte-americano. Foi assim que William Jennings Bryan lançou um movimento em favor da “prata livre” (free silver movement), com o objetivo de poder cunhar livremente esse metal como dinheiro legal. Em 1878 a lei Bland-Allison autorizou os bônus de prata do Tesouro, que se converteram em dinheiro legal em 1886. Em 1890 a Sherman Silver Act praticamente obrigava o Tesouro a adquirir a produção total das minas de prata dos EUA. Em 1882 foram adotadas medidas similares para os bônus de ouro, mas nenhuma delas deu à circulação monetária a flexibilidade esperada.

 
*Moeda de 20 dólares em ouro, cunhada em 1904

Esse sistema criou graves dificuldades, não só internas, como também internacionais. Na verdade, a única maneira de compensar os câmbios da demanda interna de numerário eram as operações no mercado mundial; estas, por sua vês, provocavam uma instabilidade no funcionamento do sistema monetário internacional. Isso foi o que aconteceu em 1893, quando se propagou bruscamente o medo de os EUA não respeitarem a conversão da dívida pública em ouro, saldando-a, ao invés disso, em prata, cujo preço nos mercados internacionais estava caindo, o que provocou uma fuga de ouro incontrolável e a falência de diversos bancos.

NASCIMENTO DA RESERVA FEDERAL

A fuga do ouro foi contida com a Gold Standard Act de 1900, que pôs fim ao bimetalismo, ajustou o dólar com firmeza ao padrão-ouro e obrigou aos bancos privados a terem um respaldo nesse metal para a emissão de notas. A quantidade de ouro nas mãos do público triplicou entre 1899 e 1910, como aliás a do Tesouro. O montante de ouro da reserva mundial correspondente aos EUA passou de 15% a 30%, ao mesmo tempo em que muitos outros países (Áustria-Hungria, Rússia, Japão...) adotaram também o padrão-ouro.

*Cédula de 10 mil dólares impressos pela Reserva Federal a partir de 1918

No sistema do padrão-ouro, que prevaleceu até a Primeira Guerra Mundial, as moedas, definidas por um peso em ouro, podiam ser convertidas livremente nesse metal. Os países que aderiam a esse sistema deviam manter reservas de ouro suficientes para garantir a conversão de suas moedas. No sistema padrão-ouro de câmbio, as reservas consistem essencialmente em divisas que, por sua vez, podem ser convertidas em ouro.

À medida que a oferta se desacelerou, a acumulação de ouro nos EUA causou mais dificuldades do que a fuga desse metal, em particular porque o ouro que entrava no Tesouro só podia ser utilizado para financiar o déficit do balanço de pagamentos (que apresentava então um superávit). O Tesouro, por ser um sistema independente, não estava apto a utilizar seu ouro como respaldo para emitir dinheiro nem para servir como credor de última instância.

Em 1907, os legisladores começaram a considerar a criação de uma instituição nacional que pudesse enfrentar as flutuações da demanda monetária de outra maneira que não a absorção de ouro do exterior. Essa instituição foi finalmente criada pela Federal Reserve Act adotada em 1913.

*Um dos primeiros "Certificados de Ouro" emitido em 1886 para substituir moedas de prata

O território norte-americano, por aquela lei, foi dividido em 12 distritos, cada um com seu banco federal de reserva, cujo capital estava subscrito pelos privados que se viam, assim, forçados a aderir ao sistema. Este entrou em funcionamento no dia 2 de novembro de 1914. Os bancos federais foram autorizados a emitir um novo tipo de moeda, as notas da Reserva Federal, que era dinheiro legal para todas as dívidas e obrigações, tanto dos bancos quanto do governo dos EUA.

Essas novas notas deviam substituir as dos bancos privados, e a dívida que tinha servido de respaldo para estes deveria ser recolhida e paga com notas da Reserva Federal. A emissão estava lastreada em ouro em pelo menos 40%, e o restante por valores comerciais e outros ativos idôneos adquiridos, mediante desconto, dos bancos privados. Desse modo, supria-se a necessidade de criar um meio flexível de pagamento, que pudesse aumentar ou diminuir a oferta de moeda em função das exigências dos intercâmbios e da situação do sistema bancário. Um banco associado com escassez de divisas podia adquiri-las descontando ativos em troca de cédulas da Reserva Federal.

*Certificado de ouro de cem mil dólares, de uso restrito aos bancos federais, 1934

Mas o Conselho da Reserva Federal, com sede em Washington e nomeado pelo presidente da República, exercia uma tutela problemática sobre os bancos federais, cujos proprietários e diretores eram banqueiros privados. Como não estava claro de quem dependia a política monetária, cabia aos banqueiros sempre a última palavra.

No entanto, as duas condições necessárias para a ulterior supremacia internacional do dólar já existiam: a acumulação nos EUA de uma parte considerável de reserva mundial de ouro, o que obrigou o sistema monetário internacional a adotar um padrão-ouro de câmbio, e a unificação da moeda nacional, emitida por uma só autoridade com poder para atuar como garantidor de última instância.

*Libra de ouro inglesa - 1911, antecessora no mercado mundial.

A Primeira Guerra Mundial debilitou o poder do Reino Unido, e a moeda norte-americana entrou no período de pós-guerra com uma paridade em relação ao ouro superior da libra esterlina. Além disso, a economia dos EUA, após uma breve recessão, conheceria o período de uma prosperidade chamado de “os anos loucos da década de 20”, época áurea do rádio e do automóvel.

O CRACK DE 1929

A entrada maciça de capitais de investimento nos EUA, provocada no início pelo crescimento rápido da atividade econômica e pela prosperidade do mercado acionário e, depois, pelas elevadas taxas de juros aplicadas com a intenção de pôr fim à especulação de Wall Street, acabou com a estabilidade das taxas de câmbio. O crack da Bolsa em 1929 provocou inúmeras falências bancárias, que a Reserva Federal não pôde compensar. A derrocada dos valores de investimento levou a uma depressão mundial.

*Bolsa de Valores de Nova Iorque, 1929

As provas inegáveis da generalização de fraude bancária, vindas à tona com esse desastre, evidenciaram as deficiências na função controladora exercida pela Reserva Federal e em sua capacidade de orientar a política monetária, a fim de proteger da falência até os bancos mais bem administrados. Uma série de medidas – nacionalização do ouro, desvalorização do dólar a 35 dólares a onça de ouro etc. – assim como a Banking Act de 1935, que reforçava as atribuições do Conselho da Reserva Federal, deu lugar finalmente à criação de um sistema com atribuições equivalentes às de um banco central europeu.

Assim, o período entre-guerras serviu para consolidar o poder da reserva monetária dos EUA e a estrutura de seu sistema financeiro. A partir desse momento, os EUA estavam preparados para tomar a frente de Londres no sistema internacional. Os EUA tornaram-se o maior credor do mundo do pós-guerra. Todos os países que desejavam comprar mercadorias para a reconstrução tinham que adquirir dólares, o que transformou a moeda norte-americana na primeira moeda internacional.

*Fonte: O Correio da Unesco, Março de 1990 Ano 18 Nº 3
*Fotos retiradas da Internet